sexta-feira, 28 de agosto de 2009

POEMA DO DIA

AS ÁGUAS DE MINHA SAUDADE

Uma velha trempe de arame
Pairando sobre o braseiro
Uma fumaça de palheiro
Se espalhando no galpão...
Um João de barro no oitão
Prenunciando primavera
Um silêncio de tapera
De apertar o coração.

Uma cambona chiando
Na esperança de outro mate
Um ovelheiro que late
Lá p’ras os lados da mangueira
Um rangido de porteira
De alguém que chega ou se vai
E um fim de tarde que cai
Na mansidão da fronteira.

São coisas simples que ficam
Registradas nas retinas
Imagens tão pequeninas
Que os olhos guardam pra si...
E lá do fundo da alma
Espiam de vez em quando
Quando me pego mateando
A lembrar de onde vivi.

Um tilintar de chilenas
Anunciando o fim da lida
A quietude ganha vida
O galpão se torna casa...
E quando a noite abrir asas
Sobre estes filhos do campo
As vozes se tornam cantos
Na claridade das brasas.

Uma cantiga campeira
Um dedilhar de violão
Uma roda de chimarrão
E um “- buenas, chegue p’ra perto”
Um fragmento de verso
E um poncho carnal vermelho
Secando junto ao braseiro
As deságuas da saudade.

Saudade que vive em mim
Depois que vim p’ra cidade
Troquei minha liberdade
Pelas grades e concretos...
E os sonhos, hoje dispersos
Não são mais os que eu sonhava
A riqueza que eu buscava
Lá fora “tava” tão perto.

( Do livro De tempo e saudade)

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

POEMA DO DIA

A PARTIR DE HOJE, ESTAREMOS POSTANDO 1 POEMA POR DIA, TRAZENDO POEMAS DO LIVRO "DE TEMPO E SAUDADE"


A MÃO DO TEMPO

Estas saudades
que povoam rimas,
vertem silêncios
na boca da noite

são sois de outono
em meus arrebóis
gumes de vento
em febris açoites...

quem retira as trancas
das portas do medo?

quem esconde as chaves
dos quartos de hora?

É a mão do tempo
que conduz as coisas
e afaga os dias
de quem ri ou chora.

( Do livro De tempo e saudade)

domingo, 23 de agosto de 2009

JÁ ESTÁ DISPONÍVEL O LIVRO DE TEMPO E SAUDADE




De São Gabriel, os Marechais da terra. No campo-desquartel da poesia, eis que nos chega o jovem Ivonir Gonçalves Leher. Na hierarquia do poema, falo de alguém que já se inaugura - oficialmente em livro solo - em forma de Oficial, com o perdão do imperdível trocadilho. É que, nessa constelação de estrelas-no-ombro, ele chegou já em estado de pós-soldado para honrar, no futuro-ali-na-esquina, o título da cidade-mãe. Se não no ombro, no coração. Esperem, e verão: mesmo que seja em algum futuro inverno gabrielense. Quem viver, verá.

Quem já conhece o trabalho dele em algumas (muito boas) composições de festivais, não ficará por demais admirado: sabe que o poeta é de boa cepa, e veio dos veios da terra para ficar. E para dizer a que veio, também.

Metáforas vigorosas, imagens fortes, concisão: elementos fundamentais para o fundamento do poeta. Está a caminho um grande nome da literatura sulina. Ivonir Leher é um autor que, mesmo ainda jovem, é capaz de produzir interessantes e inquietantes reflexões sobre o tempo, a saudade, e a dor (sublime) de estar-no-mundo.

Ausência, distância e coração permeiam seus poemas com uma verdade que vem assim, cordianamente (cordis / coração) do sul do Rio Grande do Sul, mas pode galopar até algum onde ou até algum-alguém que seja capaz de ler e dar vaza à sua voz, competente e sincera.

O poeta em questão é capaz de produzir versos como “fantasmas jogam paciência no porão” (...) “cronos deixou cair a ampulheta” (...) “o senhor do tempo , no seu trono pendurado, rege o sono dos plebeus”.

O que mais dizer? Pendurado (ou pendulado), o relógio do tempo fará jus ao nome que se inaugura. O tempo abre o livro das respostas. Em presente ou demorância, costuma ser assim. Aqui ou em outro lócus neste mun-dão-velho-sem-porteiras. O artista – quando artista - vence o tempo.

Parabéns ao poeta e – principalmente - a estes primeiros leitores: estarão acompanhando o nascimento de um grande.


Jaime Vaz Brasil
Poeta e compositor